O sacolejar do ônibus torna minha caligrafia quase ilegível, e mesmo assim tento escrever. Tento porque estou cansado de tanto silêncio. Cansado de pensar e sentir e chorar calado. Eu preciso escrever. Nem que seja para declarar que sim, sigo vivo, sigo tentando. E não tá fácil. Mas será que é fácil para alguém? Talvez seja. O que sei com certeza é que, pra mim e pra muitos que conheço, nunca foi. E, mesmo assim, nós, eles e eu, continuamos aqui, tentando, lutando. Lutando pelo quê? Lutando pra quê? Lutando por quem? Às vezes não tenho certeza, e desanimo. Desanimo mesmo. Sei que essa história de "lutar sempre, desanimar nunca" é muito, muito bonitinha, mas não cola. Não pra mim. Eu tenho dúvidas, muitas dúvidas, e elas não se calam. Busco respostas o tempo inteiro, suplico por elas. Às vezes invento algumas e enfio goela abaixo pra ver se as dúvidas as engolem, mas elas acabam por cuspi-las de volta. Porque essas dúvidas, essas minhas, não aceitam nada que não seja a mais pura verdade. E como encontrar a verdade nesse mundo em que, a todo momento, mais e mais mentiras são fabricadas(às vezes para nos confortar, às vezes só pra nos enganar mesmo) é muito difícil, não posso ignorar o desânimo que me vem cochichar no ouvido. Mas tento. Sempre tento.
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